Mini Negócio: um aplicativo, mas principalmente uma experiência pessoal - Parte 4
A ideia desse relato sempre foi fazer em duas partes, mas nem eu mesmo lembrava que a história tinha tanta coisa. O tempo passa, a gente esquece… mas realmente é uma história longa, foram quase 6 meses — e, realmente, em seis meses muita coisa pode rolar.
Após a reunião desastrosa, o período de comunicação difícil, o jeito dele… todo mundo estava com o pé atrás e de saco cheio. A gente se entreolhou sem saber muito o que pensar, mas, sem muita opção, todo mundo concordou.
Um dos combinados nessa viagem era que ele iria providenciar um lugar para a gente passar os dias em São Paulo. Mas pergunto para você, caro leitor: o que você acha que ele fez?
Opção 1 — Pegou um hotel simples, barato e digno.
Opção 2 — Deixou a gente na casa semiabandonada da parte 1.
Obviamente, foi a opção 2...
Uma casa semiabandonada, com uns colchões velhos e almofadas de espreguiçadeiras no chão. Era praticamente um depósito. Era julho, São Paulo estava bem fria e a água do chuveiro mal ficava quente. Estrutura bem precária.
A Thaisa, a única menina do grupo, ficou aterrorizada. Era a primeira vez dela em São Paulo e ela não queria ficar sozinha, então acabou dormindo no mesmo quarto que a gente. Obviamente, não teria nenhum problema — éramos todos amigos —, mas o namorado dela não gostou da situação e aconteceu um desentendimento entre eles.
Totalmente compreensível. Era uma situação extremamente inapropriada.
Depois de jantar e ajeitar todas as coisas, todo mundo deitado, estávamos com as luzes apagadas e conversando, cada um na sua espreguiçadeira no chão. O consenso era que aquilo não poderia continuar. Era o acúmulo de tudo: o jeito dele, as situações, a forma como as coisas estavam acontecendo…
Apenas o Murilo estava receoso e queria continuar. Sua única questão era o valor da ajuda: R$ 400 era realmente muito pouco. Ele já tinha saído do emprego para entrar nessa empreitada, então não queria desistir cedo.
Mas todos nós — incluindo eu — estávamos certos de que, depois de meses, aquilo não daria certo. Não pela ideia. Não pelo esforço. Mas pela forma como as coisas estavam indo. Uma sociedade é praticamente um casamento. Problemas de convivência acabam com casamentos e também acabam com negócios.
Depois da conversa, a ideia geral foi:
Vamos desistir. Acabar com isso logo. Afinal, já parecia certo que aquilo não daria certo. Murilo aceitou, mesmo contrariado.
E ficou decidido: vamos acabar com isso amanhã mesmo!
No outro dia, todos acordamos… Era o dia de acabar com tudo aquilo. Já arrumamos as malas e ficamos esperando o Cláudio na frente da casa. O combinado era que ele passaria de manhã para pegar a gente e irmos para o escritório.
Alguns minutos depois da hora combinada, lá vem o Cláudio. Ele chegou, estacionou o carro e viu todo mundo do lado de fora, com malas e tudo.
Detalhe importante: 9 da manhã, olhos vermelhos e um jeito meio elétrico. Acho que era uma mistura de beck e café — mas não tenho certeza e não vou fazer ilações.
A princípio, ele achou estranho e disse que poderíamos deixar as malas na casa, porque ficaríamos mais alguns dias em São Paulo e ainda teríamos mais três noites no cativeiro.
Foi então que eu disse as palavras que praticamente foram a faísca na pólvora:
— Então, Cláudio, vamos levar as malas. A gente precisa conversar. Vamos voltar para Prudente. Vamos encerrar o projeto...
PRA QUÊ, CARO LEITOR? PRA QUÊ EU FALEI ISSO?
Ele imediatamente respondeu irritado:
— Vamos entrar e conversar.
Entramos.
E aí começou o show de horrores. Ele começou a berrar:
— VOCÊ É UM ESTELIONATÁRIO!
— UM BANDIDO! NÃO DÁ PRA CONFIAR EM VOCÊ!
— JÁ GASTEI MUITO DINHEIRO COM VOCÊS!
Foi um surto. Parecido com o surto do contrato, mas dessa vez presencial.
Agora pense na situação: você está dentro de uma casa semiabandonada em São Paulo, com um cara completamente fora de si gritando com você e que, aparentemente, poderia ter usado algum tipo de entorpecente… A gente sempre vê histórias de pessoas malucas por aí. Naquele momento, achei que ele fosse bater na gente.
Ele destratou a Thaisa. Confesso que não lembro exatamente o que disse, mas foram coisas que nenhuma mulher deveria ouvir. E eu fiquei sem reação. Estava paralisado — uma mistura de medo e incredulidade.
Depois do show, ele me chamou para conversar em particular. Achei que ali ele fosse me matar. Mas, graças a Deus, não. Ele se acalmou. Eu expus todos os pontos e disse que realmente queria encerrar a parceria.
Depois, ele fez a mesma coisa com todo mundo: chamou cada um para conversar em particular, um por um. Seguindo o que havíamos combinado na noite anterior, todos queriam encerrar.
Todos, menos o Murilo.
Ele já tinha colocado muita coisa a perder e queria continuar. Tinha saído do emprego para entrar naquela empreitada e, para ele, simplesmente voltar para casa não era uma decisão tão simples.
Depois disso, o Cláudio chamou nós dois para conversarmos juntos.
Naquela hora, eu me senti responsável. Eu tinha chamado o Murilo para aquilo. Ele tinha saído do emprego. E, por esse receio, acabei topando continuar. Na minha cabeça, sair dali e simplesmente deixar o Murilo sozinho naquela situação seria uma puta covardia. Obrigado papai e mamãe por me fazer uma pessoa de valores.
Uma coisa nunca saiu da minha cabeça daquele dia fatídico: a Thaisa, com lágrimas nos olhos, olhando para ele e dizendo:
"Ninguém nunca me tratou assim."
Foi complicado.
Naquele dia, fomos para o escritório. Ninguém falava nada. O clima estava PESADO. Levamos a Thaisa até a rodovia. O caminho inteiro em silêncio. Não saiu uma palavra.
Depois disso tudo, Murilo e eu continuamos trabalhando no projeto na medida do possível. Dois devs para tudo o que estava planejado era simplesmente impossível. Nesse meio-tempo, alugamos uma sala comercial em Prudente e comecei a chamar outras pessoas para trabalhar com a gente.
Mas quem ia topar trabalhar com um maluco? Ninguém, é claro.
E eu não mentia. Falava do projeto, do status das coisas e também do perfil do Cláudio. Muita gente se interessava, mas, quando ouvia sobre o Cláudio, desistia.
Não lembro exatamente o porquê nem como, mas o Itachi topou voltar para o projeto com uma condição: não ter nenhuma interação com o Cláudio.
Nesse período, eu e o Murilo fomos para São Paulo algumas vezes para alinhamentos e para resolver detalhes da abertura da empresa — e sempre hospedados na casa semiabandonada.
Um fato engraçado foi quando descobrimos qual seria a porcentagem que eu e o Murilo teríamos da empresa. Era uma porcentagem ridícula. Nossas partes somadas não chegavam a 8%. O resto era do Cláudio.
Algumas coisas engraçadas aconteceram nessas viagens. Na época eram trágicas; hoje são engraçadas.
Depois de alugar a sala comercial em Prudente, virei para o Cláudio e disse:
— Pô, a gente precisa arrumar umas mesas, cadeiras… não tem nada lá.
Ele virou para mim e falou:
— Pode levar essa aí.
"Essa aí" era uma mesa de uns dois metros no meio do escritório dele em São Paulo.
Eu fiquei sem entender.
— Levar como?
A solução dele?
Embrulhou a mesa em plástico-bolha.
E eu levei a mesa de ônibus para Prudente.
Agora imagina a cena: eu e o Murilo, na Rodoviária de São Paulo, carregando uma mesa de dois ou três metros embrulhada em plástico-bolha para colocar em um ônibus.
Pra melhorar a situação, o horário do ônibus estava errado.
Quando descobri, tive que sair desesperado, correr para deixar aquela mesa gigantesca no guarda-volumes para não perder o ônibus e ainda implorar para o motorista esperar.
Bom, depois que tínhamos a mesa, a sala alugada, internet contratada e tudo minimamente no lugar, começamos de fato o projeto.
Éramos só três, mas era o que tinha.
MAS um novo problema apareceu:
Cláudio começou a atrasar o pagamento da galera. Já era pouco. E ainda vinha atrasado. Era só o que faltava…
Nossa comunicação estava difícil. Os problemas de convivência e de tratamento continuavam acontecendo. Ninguém se sentia à vontade com ele. Eram basicamente os mesmos problemas que existiam desde o começo, só que agora somados ao atraso dos pagamentos.
A situação começou a ficar realmente complicada.
Murilo, que pagava aluguel na época, chegou a precisar pegar um empréstimo para conseguir pagar o aluguel e depois quitar a dívida quando o Cláudio finalmente pagasse. A situação estava ficando calamitosa.
Como trabalhar daquele jeito? Com preocupação financeira, clima péssimo, comunicação ruim e toda aquela tensão? Ninguém mais estava nem indo para a sala.
E, aos poucos, outros empregos começaram a parecer bem mais tentadores. O projeto andava a passos de tartaruga e cada vez mais problemas se acumulavam.
Até que um dia, em uma reunião sobre o andamento com o Cláudio, eu estava mostrando o que tínhamos feito, o que tinha avançado e alguns dos problemas que ainda precisávamos resolver.
Até que ele virou e falou:
— Tudo está muito lento. Preciso saber quando isso vai terminar. Monta aí um cronograma, senão a gente vai ter que encerrar isso.
EITA.
Era exatamente o que a gente precisava ouvir. Essa foi a deixa que faltava. Se o tempo faria o projeto acabar, então vamos pedir tempo.
Muito tempo.
Montamos um plano bem detalhado, com tudo o que ainda precisava ser desenvolvido. Pelas nossas estimativas, levaria pelo menos uns seis meses. A ideia era simples: fazer ele desistir. Melhor ainda: fazer ele tomar a iniciativa de encerrar o projeto.
E funcionou.
Depois de olhar o planejamento e não conseguir contestar muito o cronograma, ele finalmente decidiu finalizar o projeto, sem dó nem piedade.
E o timing não poderia ter sido melhor.
Pelo que ele disse, a empresa dele estava entrando em um processo de M&A e o foco mudaria completamente. O que nos beneficiou bastante. Se livrar daquele projeto acabava sendo conveniente para todo mundo.
E foi assim... Encerramos o projeto.
Lembro que ele ainda fez uma ameaça meio velada: se não fosse o bendito M&A, ele processaria a gente.
MAS PROCESSAR PELO QUÊ, MEU DEUS?
Eu fui um dos que mais se ferraram nessa história toda. Além de tudo, ainda tive um bom prejuízo financeiro. Precisei pagar multa do aluguel da sala, cancelar internet, resolver contratos e arcar com algumas despesas que ficaram.
Mas, sinceramente?
Eu só queria me ver livre daquela situação.
Naquele momento, eu pagaria o dobro para me livrar dele.
Na época, toda essa situação foi bem difícil. E olha que contei apenas algumas coisas, sem entrar em muitos detalhes, porque, se fosse contar tudo, chegaríamos tranquilamente até a parte 15.
Mas a reflexão que faço depois de todos esses anos é que, de alguma forma, eu precisava passar por aquilo.
Eu era um gordinho do interior, meio bobinho, entrando no mundo dos negócios e achando que boa vontade, trabalho e uma ideia legal seriam suficientes. Já aviso que não são.
Foi uma experiência que me trouxe muito aprendizado — um crescimento meio que a ferro e fogo. Aprendi a ouvir mais aquela voz interna. Aprendi a falar "não". A me impor quando é necessário. A entender que nem todo mundo serve para ser seu sócio, seu parceiro ou até mesmo seu amigo.
No fim, eu perdi dinheiro, perdi tempo e perdi uma oportunidade que, lá no começo, parecia que poderia mudar minha vida.
Mas ganhei alguma coisa que, aos 20 e poucos anos, talvez fosse muito mais importante: sabedoria.